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Um exame de sangue pode mostrar mais cedo se o tratamento
do câncer de mama está funcionando?

Biópsia líquida identifica fragmentos do DNA do tumor no sangue e pode abrir caminho para um acompanhamento mais rápido e personalizado de mulheres com câncer de mama avançado


Descobrir se um tratamento contra o câncer está funcionando costuma exigir tempo, acompanhamento clínico e exames de imagem. Mas e se uma simples coleta de sangue pudesse oferecer pistas sobre essa resposta poucas semanas depois do início da terapia?
Essa possibilidade vem ganhando força com os avanços da chamada biópsia líquida, exame capaz de identificar no sangue pequenas quantidades de DNA liberadas pelas células tumorais, o chamado DNA tumoral circulante, ou ctDNA.

Um estudo publicado na revista científica Clinical Cancer Research analisou justamente o potencial desse marcador em pacientes com câncer de mama avançado. Para a mastologista e ginecologista Dra. Denise Joffily, os resultados ajudam a mostrar como a medicina caminha para um acompanhamento cada vez mais individualizado do câncer.

“É uma perspectiva muito interessante porque não estamos olhando apenas para o tamanho de uma lesão em determinado momento. Estamos conseguindo obter informações sobre a atividade do tumor a partir de fragmentos do seu DNA encontrados no sangue. Isso pode acrescentar uma nova camada de informação ao acompanhamento da paciente”, explica a Dra. Denise Joffily.

O que o sangue pode revelar sobre o tumor?

Quando células tumorais morrem ou se renovam, pequenos fragmentos de seu material genético podem chegar à corrente sanguínea. É justamente esse material que pode ser identificado por técnicas de biópsia líquida.
Diferentemente de uma biópsia convencional, que normalmente exige a retirada de uma amostra de tecido, a biópsia líquida pode ser realizada a partir de uma coleta de sangue.

Além de permitir a identificação de determinadas alterações moleculares do tumor, o ctDNA vem sendo estudado como uma espécie de marcador dinâmico da evolução da doença.

“Veja que interessante: o tumor não é necessariamente uma estrutura biologicamente estática. Ele pode apresentar alterações ao longo do tempo e também em resposta aos tratamentos. Conseguir acompanhar sinais desse comportamento por meio do sangue é uma das razões pelas quais essa tecnologia desperta tanto interesse”, ressalta a mastologista.

O que mostrou o novo estudo?

Os pesquisadores analisaram amostras de sangue de 167 pacientes com câncer de mama avançado participantes do ensaio clínico plasmaMATCH.

As coletas foram realizadas antes do início do tratamento e novamente após quatro semanas. Os níveis de ctDNA foram então comparados com a resposta das pacientes às terapias e com o período em que a doença permaneceu sem progressão.

As participantes foram avaliadas em diferentes grupos, de acordo com as características moleculares de seus tumores e os tratamentos recebidos.

Em um dos grupos, formado por pacientes com câncer de mama triplo negativo sem uma mutação-alvo, níveis mais baixos de ctDNA antes do tratamento estiveram associados a uma sobrevida livre de progressão de 10,2 meses, contra 4,4 meses entre aquelas com níveis mais elevados.

Também houve diferença na resposta ao tratamento: 40% das pacientes com níveis reduzidos de ctDNA responderam à terapia, comparadas a 9,7% entre aquelas com níveis mais altos.

Em outro grupo, que reunia pacientes selecionadas por alterações moleculares e que receberam tratamentos direcionados, a associação também foi observada. Entre aquelas nas quais o ctDNA estava indetectável, a doença permaneceu controlada por 10,6 meses, em comparação com 3,5 meses. A resposta ao tratamento foi de 46,2% entre pacientes com níveis baixos do marcador, contra 7,9% entre aquelas com níveis persistentemente elevados.

“Esses números chamam a atenção porque mostram uma associação entre a quantidade de DNA tumoral encontrada no sangue e a evolução clínica dessas pacientes. Mas é muito importante entender a palavra ‘associação’. Não podemos transformar um resultado promissor em uma promessa de que um único exame será capaz de determinar sozinho a conduta de todas as mulheres”, pondera a médica.

E quatro semanas depois?

Um dos achados mais interessantes apareceu quando os pesquisadores repetiram o exame após quatro semanas de tratamento.

Em um dos grupos estudados, as pacientes nas quais o DNA tumoral deixou de ser detectado tiveram a doença controlada por cerca de 12 meses, enquanto entre aquelas que continuavam apresentando ctDNA detectável esse período foi de 4,3 meses.

A diferença também apareceu na resposta à terapia: 85,7% das pacientes com ctDNA indetectável responderam ao tratamento, contra 11,4% entre aquelas que ainda apresentavam material genético tumoral circulante.

“Quando tratamos um câncer, uma das grandes questões é saber se aquela estratégia está realmente beneficiando a paciente. Se conseguirmos obter sinais dessa resposta mais cedo, podemos ganhar informações importantes para discutir os próximos passos do tratamento”, afirma a especialista.

Isso significa trocar mais cedo um tratamento que não funciona?

Esse é um dos grandes potenciais estudados para o ctDNA.

Se alterações no DNA tumoral circulante conseguirem indicar precocemente que determinada terapia não está produzindo a resposta esperada, no futuro essas informações poderão contribuir para decisões mais rápidas e individualizadas.

Além disso, a análise molecular pode ajudar a identificar alterações genéticas que surjam durante a evolução do tumor e que eventualmente tenham implicações terapêuticas.

Mas existe uma diferença importante entre potencial científico e conduta já estabelecida.

“É exatamente aqui que precisamos ter responsabilidade com a informação. A ideia de descobrir mais cedo que um tratamento não está funcionando é extremamente atraente, inclusive porque poderia evitar exposição desnecessária a terapias ineficazes e seus efeitos adversos. Mas ainda precisamos de estudos prospectivos maiores que mostrem quando e como usar essas informações para mudar uma terapia com segurança”, alerta a mastologista.

Os próprios pesquisadores responsáveis pelo trabalho destacam a necessidade de validação dos resultados em estudos maiores.
A biópsia líquida vai substituir mamografia, tomografia e biópsia?
Não. Esse talvez seja um dos pontos mais importantes para as pacientes compreenderem.

A expectativa é que a biópsia líquida possa complementar outras ferramentas utilizadas no diagnóstico e no acompanhamento do câncer, e não simplesmente substituí-las.

Exames de imagem, avaliação clínica, análise anatomopatológica e, quando indicada, a biópsia tradicional continuam tendo funções fundamentais.

“A paciente não deve interpretar essa novidade como ‘agora existe um exame de sangue que substitui todos os outros’. Não é isso. Estamos falando de ferramentas que podem se complementar. Quanto mais informações confiáveis tivermos sobre aquele tumor e sobre a resposta daquela mulher ao tratamento, mais elementos teremos para individualizar o cuidado”, esclarece Dra. Denise.

Uma medicina cada vez mais personalizada
A biópsia líquida já está presente em determinados contextos da oncologia, mas seu acesso ainda é limitado, especialmente quando envolve análises genômicas mais amplas.

Custo, disponibilidade em centros especializados, padronização dos métodos, definição do melhor momento para a coleta e interpretação dos resultados ainda estão entre os desafios para uma incorporação mais ampla, tanto na medicina privada quanto no sistema público.

Também permanecem perguntas científicas importantes: quais níveis de ctDNA devem ser considerados relevantes em cada situação? Qual é o melhor momento para realizar o exame? E, principalmente, quando uma alteração nesse marcador deve realmente levar à mudança do tratamento?
Por isso, a descoberta deve ser vista como parte de uma transformação maior que vem acontecendo na oncologia: conhecer não apenas onde está o câncer, mas também suas características moleculares e como ele se comporta diante de uma determinada terapia.

“Cada câncer de mama tem suas particularidades e, principalmente, cada mulher que enfrenta a doença é única. O que mais me entusiasma nesses avanços é a possibilidade de caminharmos para uma medicina cada vez menos baseada em respostas genéricas e cada vez mais orientada pelas características daquela paciente e daquele tumor”, destaca a ginecologista e mastologista.
E existe uma mensagem importante para as mulheres que acompanham cada nova descoberta sobre câncer de mama: informação é fundamental, mas precisa vir acompanhada de contexto.

“Quando surge uma nova tecnologia, é natural que a paciente queira saber imediatamente: ‘Isso serve para mim?’. E essa é a pergunta certa. Só que a resposta precisa ser individual. Ciência de qualidade não cria falsas promessas. Ela nos oferece novas ferramentas para cuidar melhor, no momento certo e para a paciente certa”, conclui Dra. Denise Joffily.

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