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Ressonância exige olhar médico atento para identificar sinais precoces da doença

A análise cuidadosa das imagens, associada à avaliação clínica e ao conhecimento técnico do especialista, pode ser decisiva para reconhecer alterações relacionadas à doença de Creutzfeldt-Jakob

Ressonância exige olhar médico atento para identificar sinais precoces da doença.

A análise cuidadosa das imagens, associada à avaliação clínica e ao conhecimento técnico do especialista, pode ser decisiva para reconhecer alterações relacionadas à doença de Creutzfeldt-Jakob

A doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é uma enfermidade neurodegenerativa rara e de evolução extremamente rápida, marcada por uma deterioração cognitiva progressiva que pode ocorrer em poucos meses. Em meio aos desafios para alcançar um diagnóstico precoce, a ressonância magnética do encéfalo, especialmente quando realizada com sequências adequadas e analisada por profissionais experientes, ocupa papel de destaque na investigação. Para os neurologistas Marco Orsini, coordenador do Centro de Estudos Niterói D’Or, e Marcos RG de Freitas, além da neurorradiologista Lara A. Brandão, o valor do exame não está apenas na tecnologia empregada, mas principalmente na capacidade médica de interpretar as imagens em conjunto com a história e os achados clínicos do paciente.

Diferentemente da doença de Alzheimer, na qual o comprometimento cognitivo costuma evoluir de maneira lenta e gradual ao longo de anos, a DCJ apresenta uma progressão muito mais acelerada. O paciente pode inicialmente apresentar alterações de memória, atenção e capacidade de realizar atividades cotidianas, seguidas por manifestações motoras, mioclonias, alterações da linguagem, dificuldades visuais e perda progressiva da capacidade de comunicação. Em determinados casos, a evolução pode levar rapidamente a um quadro de grave desconexão do paciente com o ambiente.

A sobrevida média após o início dos sintomas costuma ser de aproximadamente quatro a seis meses, e cerca de 70% dos pacientes morrem no primeiro ano. Existem, porém, casos de evolução mais lenta, nos quais a doença pode se prolongar por até dois anos. Essa velocidade torna fundamental reconhecer os sinais o quanto antes e diferenciar a DCJ de outras condições capazes de provocar uma demência rapidamente progressiva.

Nesse cenário, a ressonância magnética do encéfalo ganha importância, principalmente pela utilização da sequência de difusão, uma técnica capaz de avaliar o movimento das moléculas de água dentro dos tecidos. Trata-se de uma sequência rápida, que pode durar cerca de 40 a 60 segundos, e que consegue demonstrar alterações relacionadas à doença em uma fase precoce, inclusive quando outras sequências da ressonância ainda não apresentam alterações evidentes.

Entre os achados mais característicos estão as áreas de restrição à difusão no córtex cerebral, responsáveis pelo chamado cortical ribboning, além de alterações nos núcleos da base, estruturas de substância cinzenta localizadas profundamente no cérebro. Esses sinais refletem a intensa disfunção e lesão neuronal provocadas pela doença e podem surgir precocemente durante a evolução clínica.

Uma metanálise publicada na European Radiology em 2021, envolvendo 15 estudos e 1.144 pacientes, apontou sensibilidade entre 90% e 95% para a sequência de difusão na identificação de alterações relacionadas à DCJ. O resultado demonstra o potencial da ressonância quando utilizada de maneira adequada e interpretada dentro do contexto clínico.

Para Marco Orsini e Marcos RG de Freitas, entretanto, existe um ponto fundamental que não pode ser ignorado: solicitar uma ressonância não significa simplesmente receber um laudo e encerrar a investigação. O médico responsável pelo acompanhamento precisa conhecer as imagens e saber o que está procurando a partir dos dados obtidos no exame neurológico e na avaliação clínica.

A preocupação é que a leitura baseada exclusivamente no laudo possa fazer com que informações importantes presentes nas imagens passem despercebidas. Segundo os especialistas, o médico que já busca diretamente a conclusão escrita pode ser induzido ao erro por aquilo que não foi descrito ou valorizado na interpretação inicial.

A questão se torna ainda mais relevante em exames neurológicos complexos. Não basta pedir uma ressonância sem ter uma hipótese clínica e sem saber quais informações devem ser procuradas. O exame de imagem precisa responder às perguntas levantadas pela avaliação médica. Quando o neurologista identifica determinados sinais no paciente, é necessário buscar nas imagens a correspondência para esses achados.

Essa integração também explica a importância da relação entre o neurologista e o neurorradiologista. A experiência do profissional responsável pela análise das imagens pode fazer diferença na identificação de alterações discretas ou precoces. Em algumas situações, o problema está presente no exame, mas não é percebido em uma primeira avaliação simplesmente porque não houve uma análise direcionada para aquela possibilidade diagnóstica.

A neurorradiologista Lara A. Brandão, chefe do Instituto de Ressonância Magnética, no Rio de Janeiro, ressalta justamente a importância do conhecimento especializado para reconhecer padrões que podem ser decisivos na investigação da DCJ. A interpretação adequada da sequência de difusão pode acelerar o diagnóstico, reduzir a necessidade de investigações desnecessárias e contribuir para o encaminhamento mais rápido para exames confirmatórios.

A ressonância também apresenta uma vantagem importante por ser um método não invasivo e não utilizar radiação ionizante. Além de contribuir para a identificação de padrões sugestivos da DCJ, o exame ajuda a excluir outras causas de demência rapidamente progressiva, inclusive algumas condições potencialmente tratáveis, como determinados tumores e outras alterações estruturais.

Outros exames também fazem parte da investigação. O eletroencefalograma pode apresentar complexos periódicos considerados característicos da DCJ, mas sua sensibilidade é menor, especialmente nas fases iniciais. Estudos apontam sensibilidade aproximada de 44% a 46% para o EEG, enquanto a ressonância com sequência de difusão apresenta desempenho significativamente superior para detectar as alterações características.

A análise do líquido cefalorraquidiano também pode contribuir para a investigação. A proteína 14-3-3 é um marcador de lesão neuronal utilizado nos critérios diagnósticos, mas sua especificidade é limitada, já que pode estar aumentada em outras doenças que provocam intensa destruição neuronal. O desenvolvimento do RT-QuIC, por sua vez, representou um avanço importante por permitir a detecção indireta da proteína priônica patológica no líquido cefalorraquidiano, apresentando elevada especificidade, citou a pesquisadora Eduarda Iennaco.

A pesquisadora afirma que embora o RT-QuIC seja atualmente um dos exames laboratoriais mais precisos para a investigação da doença, a ressonância oferece uma informação imediata sobre o padrão de comprometimento cerebral. Por isso, a combinação entre avaliação clínica, ressonância com difusão, EEG e biomarcadores do líquido cefalorraquidiano aumenta a segurança do processo diagnóstico.

A experiência dos especialistas também mostra que a medicina de imagem não deve ser tratada como uma etapa isolada. A tecnologia oferece recursos cada vez mais avançados, mas a interpretação depende do conhecimento de quem analisa o exame e, principalmente, da capacidade de relacionar os achados radiológicos ao quadro apresentado pelo paciente.

Essa percepção é compartilhada na prática por Marco Orsini, que relata discutir seus próprios resultados com Lara A. Brandão. Segundo ele, em algumas ocasiões, houve frustração diante da incompatibilidade entre aquilo que era observado clinicamente e o que aparecia inicialmente nas imagens. Situações como essa reforçam a necessidade de diálogo entre os profissionais, especialmente quando existe uma discrepância entre os sintomas, o exame neurológico e os achados radiológicos.

A mensagem central dos especialistas é que uma ressonância não deve ser interpretada como uma fotografia independente da história do paciente. O exame precisa fazer parte de um processo médico mais amplo, no qual cada imagem seja analisada com uma pergunta clínica em mente.

Em casos de demência rapidamente progressiva, a realização precoce de uma ressonância cerebral com sequência de difusão pode ser fundamental. Mas, tão importante quanto realizar o exame, é garantir que ele seja tecnicamente adequado e analisado por um profissional capacitado para reconhecer alterações sutis.

Como resume Marco Orsini, “A tecnologia produz a imagem. O olhar médico encontra o diagnóstico”. A frase sintetiza uma questão essencial da medicina contemporânea: mesmo diante de equipamentos cada vez mais sofisticados, a tecnologia não substitui o raciocínio clínico. É a combinação entre conhecimento, experiência, investigação direcionada e diálogo entre especialistas que permite transformar uma imagem em informação capaz de contribuir para um diagnóstico mais preciso e, principalmente, mais precoce.