Tocar e Olhar Distantes na Medicina Atual: Um Novo Exame Físico?

Professores debatem os inegáveis benefícios do desenvolvimento tecnológico e científico, mas levantam bandeiras vermelhas para as dificuldades relacionadas à avaliação clínica detalhada e à preservação de abordagens que continuam sendo fundamentais para o diagnóstico médico, mesmo sem o auxílio de equipamentos.

O professor Acary SB Oliveira descreve com minúcia o período que antecede Hipócrates, conhecido como o “Pai da Medicina Ocidental”. O exercício da Medicina, naquela época, estava nas mãos dos sacerdotes de Asclépios. As doenças eram vistas como resultado da zanga dos deuses contra os homens, e os enfermos buscavam auxílio nos templos em busca da assistência sacerdotal. Hipócrates rompeu com essa visão ao negar os poderes curativos dos deuses e procurar explicações para as doenças no mundo que cercava os seres humanos, e não nos caprichos divinos. Ensinava que o médico deveria observar cuidadosamente o paciente e registrar os sintomas da doença. Dessa forma, organizou uma norma que mostrava como o paciente poderia ser curado. O processo de cura estava relacionado ao reconhecimento da physis (natureza) do corpo e de suas alterações a partir dos sinais observáveis e dos aspectos ocasionais, típicos e específicos.

“Os seus ensinamentos influenciaram a forma médica de realizar o melhor diagnóstico, baseado na semiologia que compreende duas etapas: anamnese, entrevista com o paciente para entender o histórico médico, estilo de vida e, principalmente, relato dos sintomas, queixas subjetivas; e exame físico ou semiotécnica, exame minucioso utilizando inspeção, palpação, percussão e ausculta para identificar os sinais, dados objetivos como febre, inchaço ou pressão alta”, afirma Acary.

Ao longo dos séculos, o toque ao paciente ultrapassou o caráter meramente técnico e passou a representar uma das expressões mais importantes da relação entre médico e enfermo. Através dele, gerações de profissionais construíram diagnósticos, transmitiram segurança e estabeleceram vínculos de confiança. Entretanto, para o médico Marco Orsini, a prática clínica contemporânea vive um momento de profundas transformações, marcado por desafios que vão muito além da incorporação de novas tecnologias.

“Obviamente todos nós temos receio de colocarmos o clássico exame físico e anamnese em prática na atualidade. A inteligência artificial e a estrondosa demanda de exames complementares praticamente engoliram um orgulho que herdamos da Medicina: o tocar em nossos pacientes, avaliar detalhes no corpo, palpar o abdome, auscultarmos órgãos e olharmos de forma mantida para o rosto desses buscando pistas”, afirma o médico. Segundo ele, o avanço tecnológico trouxe benefícios inquestionáveis para a Medicina, mas também contribuiu para um afastamento gradual de práticas tradicionais que sempre foram consideradas essenciais na avaliação clínica.

Marco Orsini observa ainda que a própria percepção dos pacientes em relação ao exame físico mudou significativamente ao longo dos anos. Segundo ele, procedimentos que antes eram compreendidos como parte natural da consulta passaram a despertar dúvidas e questionamentos. “Alguns me questionam se é necessário vestir uma camisola ou mesmo observar pés, mãos e/ou região das costas em meu consultório. Isso é algo assustador para a nossa profissão, mas compreensível por tudo que estamos vivendo.” Para o especialista, esse cenário reflete uma mudança cultural ampla, influenciada pela crescente valorização dos exames de imagem, pela rapidez dos atendimentos e pela presença cada vez maior de recursos tecnológicos no processo diagnóstico. Embora compreenda as razões para esse comportamento, ele acredita que a situação merece atenção por parte da comunidade médica e acadêmica.

Essa transformação também trouxe novos desafios para a relação entre médicos e pacientes, especialmente no que se refere à segurança e aos limites da prática clínica. Orsini relata que muitos profissionais passaram a adotar uma postura mais cautelosa durante os atendimentos. “Não me sinto à vontade para avaliar alguém sem a presença de um terceiro dentro do meu consultório, mesmo que não exista nenhum problema por parte do avaliado. A vulnerabilidade do paciente e do médico criou uma espécie de barreira e esticou discussão longeva sobre até onde prosseguir para não sermos pontos sensíveis no quesito displicência ou estranheza”, afirma. Para ele, trata-se de uma realidade que evidencia as mudanças sociais em curso e que exige reflexão constante para que o cuidado médico continue sendo realizado de forma ética, segura e eficiente.

Ao abordar os conceitos de profissionalismo e humanismo, o professor Acary SB Oliveira destaca que ambos são fundamentais para a construção da identidade médica e não podem ser dissociados da prática assistencial. “Profissionalismo é agir de acordo com valores normativos, enquanto humanismo é uma forma de ser, que compreende um conjunto de convicções pessoais com alicerces sobre as responsabilidades de uns para com os outros, especialmente aqueles que precisam, manifestando-se através de altruísmo, dever, integridade, respeito pelos outros e compaixão.” Segundo ele, embora o humanismo continue sendo um dos pilares da Medicina, é necessário reconhecer que muitos pacientes se tornaram menos familiarizados com a prática de exames físicos amplos e minuciosos.

“Mesmo que o humanismo forneça ideia de comprometimento e paixão pelos nossos gestos e atribuições, devemos ser muito cautelosos no tocante à abordagem para com o paciente. Eles não são culpados, mas ficaram desacostumados com um exame semiológico cauteloso e amplo”, afirma o médico.

Para Acary, existe ainda um aspecto da atuação médica que permanece inalcançável para qualquer máquina ou sistema de inteligência artificial. Trata-se da capacidade humana de interpretar o sofrimento, compreender contextos e estabelecer conexões emocionais que ultrapassam os dados objetivos de um exame. “Guardamos em nós uma espécie de núcleo criativo ou semente crítica, que nos permite compreender o ser humano mais do que qualquer máquina, na dor e no amor ao que fazemos”, ressalta.

Um dos maiores nomes da Medicina brasileira, o professor Celmo Celeno Porto, autor da principal obra de Semiologia Médica do país e reconhecido defensor da valorização da prática clínica, também contribui para o debate ao destacar que a Medicina jamais poderá ser reduzida a uma atividade exclusivamente técnica ou tecnológica. “A função médica não é somente um trabalho profissionalizado, tampouco somente tecnologia, nem algo exclusivamente humanitário.” Para Porto, a identidade profissional é construída a partir de múltiplos elementos que moldam a forma de atuação de cada médico e influenciam diretamente a qualidade do cuidado prestado. “A singularidade de cada pessoa é o melhor protocolo. Às vezes precisamos usar a criatividade, a arte e a confiança para termos um resultado melhor”, afirma.

Na visão do professor, os avanços científicos devem ser celebrados e incorporados à prática médica, mas jamais em substituição às competências humanas que historicamente caracterizam a profissão. “Sendo a Medicina uma arte, devemos empregar as mais potentes ferramentas disponíveis, não apenas as melhores em Ciência e Tecnologia, mas as melhores em conhecimento, habilidades e caráter do médico. Essa é a grande satisfação e modelo que devemos sempre propagar”, afirma Celmo Celeno Porto, reforçando a necessidade de equilíbrio entre inovação e humanização.

Ao encerrar suas reflexões, Marco Orsini faz um chamado à comunidade médica e às instituições de ensino para que resgatem aspectos fundamentais da formação humanística. “Acho que devemos reformar o nosso interior, recalcular nas Escolas de Medicina uma nova volta às humanidades para lembrar quem somos, o quanto nossos pacientes são importantes e, principalmente, o que nos distingue ou distinguia como seres humanos no ato de cuidar.” Na mesma direção, Acary SB Oliveira reforça que o toque continua sendo uma ferramenta insubstituível na prática assistencial. “O toque terapêutico é o primeiro instrumento diagnóstico e humanizador na relação de saúde. Ele permite a avaliação física do paciente e promove a comunicação não verbal, essencial para transmitir empatia, aliviar a dor, reduzir a ansiedade e construir confiança na relação médico-paciente ou equipe de saúde-paciente”, aponta.

Encerrando o debate, Marco Orsini faz uma defesa enfática da retomada do exame físico realizado com atenção, cuidado e profundidade. “Quem sabe retornamos ao exame físico dedilhado com minúcia, como as teclas de um piano. Esse entrelace dos vários saberes, acumulados com nossa experiência e relação com o enfermo, é insubstituível. Sem o toque, sem dúvida nenhuma, retornaremos à época onde as doenças nem os deuses curavam”, finaliza.

Sobre eles

Dr. Celmo Celeno Porto. Médico. Membro Honorário da Academia Nacional de Medicina. Especialista em Clínica Médica e Cardiologia pela Sociedade Brasileira. Autor dos principais livros de semiologia Médica no Brasil.

Dr. Marco Orsini. Membro Titular da Academia Brasileira de Neurologia. Doutor e Pós Doutor em Neurologia\Neurociências pela UFF e UFRJ. Coordenador do Serviço de Doenças Neuromusculares Raras do Hospital Niterói Dor.

Dr. Acary SB Oliveira. Membro Titular da Academia Brasileira de Neurologia. Responsável pelo Setor de Investigação em Doenças Neuromusculares do Hospital São Paulo. Pós-Doutor pela Columbia University, Nova York (EUA).

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